O Brasil apreende quase três vezes mais cocaína do que informa ao mundo

Cocaína no Brasil: a conta fecha? 203,4 t apreendidas pelas polícias em 2024; 75,6 t informadas à ONU — quase 3 vezes

Grupo de Pesquisa · UNIR / CNPq

Por Rodolfo Jacarandá — Professor e Pesquisador

A contabilidade da cocaína

O Brasil informa às Nações Unidas apenas o que a Polícia Federal apreende. As polícias estaduais — que hoje apreendem mais que a federal — ficam de fora da conta que o país manda ao mundo.

Toda vez que se pergunta quanta cocaína o Brasil apreende, a resposta depende de onde se procura. Há mais de um número oficial, eles não conversam entre si, e o que o país informa às Nações Unidas é o menor de todos. Este texto mostra de onde vem cada um deles — e o que muda quando se usa um ou outro.

384,8 milhectares de coca plantados no mundo em 2024
2.383 tde cocaína apreendidas no mundo em 2024
203,4 to que as polícias brasileiras registraram em 2024
75,6 to que o Brasil informou às Nações Unidas

Os quatro achados

  1. O número que o Brasil manda para a ONU é o da Polícia FederalEm todos os seis anos em que a conferência é possível, os dois números são o mesmo número: a maior diferença entre eles é de 22 gramas. Em 2023 a coincidência se repete contra outra fonte — o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) —, com 456 gramas de diferença em 72,5 toneladas.
  2. Contando as polícias estaduais e federais, o Brasil seria o terceiro do mundoCom as 75,6 toneladas informadas, o país é o 7º colocado. Com as 203,4 toneladas que as polícias brasileiras de fato registraram, seria o 3º — à frente dos Estados Unidos.
  3. Um terço da cocaína apreendida no país sai da Amazônia LegalForam 67,7 toneladas nos nove estados em 2024, 33,3% do total brasileiro. O Mato Grosso sozinho responde por 49,5% da região.
  4. E não existe uma série nacional viva para acompanhar issoA tabela em quilos do Anuário do FBSP estreou na edição de 2025 e desapareceu na de 2026. O microdado do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas termina em 2023. Hoje, nenhuma das duas fontes está sendo atualizada.

O mundo nunca plantou tanta coca

Antes de chegar ao Brasil, vale olhar o tamanho do que se está medindo. A Colômbia, o Peru e a Bolívia — os três países onde a coca é cultivada — somaram 384,8 mil hectares plantados em 2024. É mais que o triplo do que se plantava em 2013 (120,8 mil hectares), e a Colômbia sozinha responde por 68% de toda a área.

Gráfico 1

O mundo nunca plantou tanta coca

Área cultivada com arbusto de coca na Colômbia, no Peru e na Bolívia somados, em mil hectares.

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0200400600201020112012201320142015201620172018201920202021202220232024384,8 mil ha

Cada país mede a própria área com sistema nacional de monitoramento apoiado pelo UNODC. A série do Peru muda de metodologia em 2011, o que o próprio anexo assinala.

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PeríodoO mundo nunca plantou tanta coca
2010154,2
2011155,6
2012133,7
2013120,8
2014132,3
2015156,5
2016213,0
2017245,4
2018246,2
2019234,2
2020234,2
2021315,5
2022354,9
2023376,4
2024384,8

Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 6.1.1.

Com essa área, o UNODC estima que se poderia fabricar 4.100 toneladas de cocaína pura em 2024 — contra 1.100 toneladas em 2010. A produção potencial quase quadruplicou em catorze anos, e quase toda a aceleração é de 2020 para cá.

Em 2024, o mundo apreendeu 2.383 toneladas, o recorde da série. As apreensões mais que dobraram em dez anos — e ainda assim o mercado cresce, o que sugere que a produção real está acima da capacidade de apreensão.

Gráfico 2

Produz-se muito mais do que se apreende

Cocaína que poderia ser fabricada com a coca plantada, e cocaína efetivamente apreendida no mundo, em toneladas.

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02.0004.0006.000201520172019202120232024Potencial4.100 tApreendido2.383 t

“Produção potencial” é o quanto poderia ser fabricado a partir da área cultivada — não é o que chegou ao mercado. A ressalva é do próprio UNODC. O total apreendido é a soma dos países que reportaram.

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AnoApreendidoPotencial
20159071.000
20161.1191.300
20171.2871.600
20181.2711.700
20191.3651.800
20201.2982.000
20211.8982.300
20221.8352.800
20231.9963.700
20242.3834.100

Fonte: Anexos estatísticos do World Drug Report 2026 (UNODC), tabelas 6.1.3 e 7.1.

Uma advertência antes de subtrair uma linha da outra, e ela é do próprio UNODC: as duas não medem a mesma coisa. A produção potencial é calculada em cocaína pura, e a apreensão é pesada como a droga saiu do porta-malas — misturada, em pureza que varia muito. A Agência da União Europeia para as Drogas, que mede pureza país a país, registrou em 2024 uma média em torno de 75% no atacado, entre os 8 países que declararam o dado. Ou seja: uma tonelada apreendida quase nunca é uma tonelada de cocaína pura, e a diferença entre o que se produz e o que se apreende é, muito provavelmente, maior do que a simples subtração sugere — não menor.

O próprio UNODC descreve essa queda em degraus, no relatório de 2023 que acompanha o cultivo de coca na Colômbia: a cocaína sai do laboratório clandestino com 75% a 90% de pureza, chega aos portos e fronteiras com 70% a 85%, e alcança o usuário final abaixo de 50%. Em cada degrau, o que se pesa é cada vez menos cocaína e cada vez mais o resto.

Onde o Brasil aparece — e onde deveria aparecer

Todo ano cada país informa às Nações Unidas quanto apreendeu, e é dessa tabela que sai o retrato internacional do problema. Em 2024 o Brasil informou 75,6 toneladas de cocaína, o que o coloca em 7º lugar no mundo.

Gráfico 3

Onde o Brasil aparece no mundo

Cocaína apreendida em 2024, em toneladas, conforme cada país informou às Nações Unidas. Os 12 maiores.

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Colômbia965,6 tEquadorEstados UnidosEspanhaPeruPanamáBrasil75,6 tBolíviaFrançaMéxicoBélgicaHonduras
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PosiçãoPaísToneladas
Colômbia965,6 t
Equador265,5 t
Estados Unidos176,2 t
Espanha124,7 t
Peru116,4 t
Panamá99,3 t
Brasil75,6 t
Bolívia66,0 t
França53,5 t
10ºMéxico51,1 t
11ºBélgica44,8 t
12ºHonduras39,4 t

Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 7.1.

O problema é que esse número não é o do Brasil. É o de uma das polícias brasileiras.

A mesma tabela, com outro nome

O Brasil tem duas grandes fontes de apreensão de droga: as polícias estaduais, que respondem pela maior parte das ocorrências no território, e a Polícia Federal, que atua sobretudo em fronteiras, rodovias federais, portos e aeroportos, e reúne também os números de apreensões feitas por outras polícias e agências federais, como a Polícia Rodoviária Federal e a Receita Federal. Comparando, ano a ano, o que o país informou às Nações Unidas com a série histórica da própria Polícia Federal, os dois conjuntos de números são idênticos.

Não são parecidos: são o mesmo número. Em seis anos seguidos, a maior diferença entre as duas colunas é de 22 gramas — em totais que passam de 100 toneladas. E a coincidência se repete contra uma terceira fonte: o que o Brasil informou às Nações Unidas em 2023 (72.504,35 kg) e a coluna da Polícia Federal no Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (72.504,81 kg) diferem em 456 gramas.

A conclusão é direta: as polícias estaduais não entram na conta que o Brasil manda para o mundo. E elas apreendem mais que a federal — foram 128,9 toneladas contra 74,5 em 2024.

Em 2024 a mesma conferência contra o Anuário dá uma diferença maior: as 75,6 toneladas informadas às Nações Unidas contra 74,5 na coluna da Polícia Federal — 1,1 tonelada, ou 1,4%. Fica registrado para que ninguém precise perguntar; a leitura não muda.

O retrato internacional do Brasil está construído sobre pouco mais de um terço do fenômeno.

Vale dizer com todas as letras o que isso não é: não é manipulação de número. É ausência de sistema. Não existe, no Brasil, uma instância que reúna o que as 27 polícias estaduais apreendem e entregue esse total como número do país. O que existe é a estatística de uma instituição federal, que é organizada, é pública — e é parcial.

Não é diagnóstico nosso. Um boletim técnico assinado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e pelo PNUD, publicado em 2022, escreve o mesmo: com 27 polícias civis, 27 militares e mais duas federais, “dificulta-se a criação e manutenção de um banco de dados nacional que registre, de maneira unificada, indicadores de quantidade, preços, pureza e outras variáveis sobre as drogas em circulação”.

E não é só às Nações Unidas

O Brasil respondeu também ao questionário da Organização dos Estados Americanos e mandou o mesmo dado: no Informe sobre la Oferta de Drogas en las Américas, as apreensões brasileiras de cocaína são 41 toneladas em 2016, 105 em 2019 e 91 em 2020 — a série da Polícia Federal, ao arredondamento. Dois organismos, dois idiomas, anos diferentes, a mesma metade da tabela.

A diferença é que a OEA ordena o continente com esses números. Entre 2016 e 2020, o relatório lista a Colômbia com 2.425 toneladas, o Equador com cerca de 410 e o Brasil com cerca de 365.

Gráfico 4

No ranking oficial das Américas, o Brasil fica atrás do Equador

Cocaína apreendida entre 2016 e 2020, em toneladas, conforme cada país informou à Organização dos Estados Americanos.

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Colômbia2.425 tEquadorBrasil365 tBolívia

Os valores de Equador, Brasil e Bolívia são declarados pela própria OEA como aproximados (“alrededor de”). O número brasileiro é o mesmo que o país informa às Nações Unidas — o da Polícia Federal.

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PosiçãoPaísToneladas
Colômbia2.425 t
Equador410 t
Brasil365 t
Bolívia97 t

Fonte: Organização dos Estados Americanos / CICAD, Informe sobre la Oferta de Drogas en las Américas 2022, p. 21.

No livro-caixa oficial das Américas, o Brasil aparece atrás do Equador — não por apreender menos, mas por contar menos.

O que muda quando a conta é completa

Somando as polícias federais e estaduais, as apreensões brasileiras de 2024 chegam a 203,4 toneladas — cerca de 8,5% de tudo o que se apreendeu no mundo naquele ano. Com esse número, o Brasil deixaria a 7ª posição e apareceria em 3º lugar, à frente dos Estados Unidos.

Gráfico 5

Onde o Brasil estaria se contasse as polícias estaduais

O mesmo ranking de 2024, trocando as 75,6 toneladas informadas pelo total que as polícias brasileiras registraram: 203,4 toneladas.

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Colômbia965,6 tEquadorBrasil203,4 tEstados UnidosEspanhaPeruPanamáBolíviaFrançaMéxicoBélgicaHonduras

Outros países também podem informar parcialmente, então a posição é ordem de grandeza, não colocação oficial.

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PosiçãoPaísToneladas
Colômbia965,6 t
Equador265,5 t
Brasil203,4 t
Estados Unidos176,2 t
Espanha124,7 t
Peru116,4 t
Panamá99,3 t
Bolívia66,0 t
França53,5 t
10ºMéxico51,1 t
11ºBélgica44,8 t
12ºHonduras39,4 t

Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 7.1, e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, tabela 95.

E mesmo essas 203,4 toneladas são um piso, não uma estimativa: as polícias estaduais de Minas Gerais e do Rio de Janeiro não aparecem na estatística nacional de apreensão de drogas — nem na tabela 95 do Anuário do FBSP, nem no microdado do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas. O que consta dos dois estados é apenas o que a Polícia Federal apreendeu neles (0,5 e 3,4 toneladas em 2024). Dois dos maiores estados do país estão, na prática, ausentes da estatística.

Um terço sai da Amazônia Legal

Dos nove estados da Amazônia Legal saíram 67,7 toneladas em 2024 — 33,3% de toda a cocaína apreendida no Brasil, contra 40,1% em 2023. Para dar a dimensão: a região sozinha apreende mais que a Bolívia, que a França ou que o México.

Gráfico 6

Metade da cocaína amazônica é apreendida no Mato Grosso

Cocaína apreendida em 2024 nos nove estados da Amazônia Legal, em toneladas — polícias estaduais e Polícia Federal somadas.

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Mato Grosso33,5 tAmazonasRondôniaParáMaranhãoTocantinsAcreAmapáRoraima

Onde a coluna das polícias estaduais está vazia na fonte, o número é só da Polícia Federal — em 2024 é o caso do Amapá. Por isso os totais são um piso.

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PosiçãoEstadoToneladas
Mato Grosso33,5 t
Amazonas22,0 t
Rondônia4,6 t
Pará3,8 t
Maranhão2,0 t
Tocantins1,1 t
Acre0,6 t
Amapá0,2 t
Roraima<0,1 t

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, tabela 95.

Dois pontos que o gráfico mostra e que costumam passar batido. O primeiro é o Mato Grosso: sozinho, ele responde por 49,5% da cocaína apreendida na Amazônia Legal — e é justamente o estado que a análise internacional costuma tratar como “Centro-Oeste” e tirar do mapa amazônico.

O segundo é a troca de posição entre Rondônia e Amazonas. Em 2023 Rondônia apreendia 10,3 toneladas e o Amazonas, 9,8. Em 2024 os dois trocaram de lugar: o Amazonas subiu para 22,0 toneladas e Rondônia caiu para 4,6.

Cuidado com essa leitura

Uma apreensão que sobe pode significar mais droga passando — ou mais polícia procurando, ou apenas mais registro sendo feito. Apreensão não é fluxo, e um par de anos não é tendência. Os três cenários pedem respostas de política pública opostas, e o dado, sozinho, não distingue entre eles.

Por que o corredor vale mais que a plantação

Há uma última conta que ajuda a entender por que essa rota existe. O quilo de cocaína no atacado custa cerca de 2.000 dólares na Bolívia e 2.643 dólares no Brasil. Na ponta europeia, o mesmo quilo no atacado chega a 38.837 dólares — 19 vezes o preço de origem.

Gráfico 7

O quilo vale 19 vezes mais no fim do caminho

Preço típico do quilo de cocaína no atacado, em dólares. Entre parênteses, o ano a que se refere o preço informado por cada país.

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Alemanha (2024)38.837Reino Unido (2024)Espanha (2024)França (2024)Bélgica (2023)Chile (2024)Brasil (2022)2.643Peru (2023)Bolívia (2024)Colômbia (2021)

Cada país informa o preço em anos diferentes, e o valor não é ajustado por pureza — serve para ordem de grandeza, não para conta exata.

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PosiçãoPaís (ano)US$ por quilo
Alemanha (2024)38.837
Reino Unido (2024)37.724
Espanha (2024)32.610
França (2024)32.216
Bélgica (2023)25.946
Chile (2024)5.754
Brasil (2022)2.643
Peru (2023)2.201
Bolívia (2024)2.000
10ºColômbia (2021)1.215

Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 8.1.

No varejo a distância é ainda maior: o grama no Reino Unido sai a 102,3 dólares — o que dá cerca de 102 mil dólares o quilo, 51 vezes o preço de origem. Praticamente todo esse valor é criado no transporte e no risco, não na plantação.

E, mesmo lá na ponta, não existe “o preço”: existe uma faixa. A agência de drogas da União Europeia recolhe esse valor com os 13 países que o declaram, e em 2024 o quilo no atacado foi informado a partir de 14 mil euros, com máximos chegando a 84 mil. Guarde esse detalhe: ele volta na última seção.

É por isso que o corredor importa mais que a lavoura — e o corredor passa pela Amazônia.

Embora ainda sejam necessários melhores estudos sobre a distribuição da droga entre atacado e varejo, não é arriscado afirmar que a Amazônia não é destino de cocaína: é passagem. A droga que atravessa Rondônia, o Mato Grosso ou a calha do Solimões está indo, pelos rios e pelas estradas, para um porto ou um aeroporto — e de lá para a Europa e os outros continentes. A fronteira amazônica e o porto brasileiro no Atlântico são o mesmo problema, separados por três mil quilômetros.

E isso não é leitura nossa: é o que os outros países dizem. Todo ano os Estados informam ao UNODC de onde partiram as cargas que apreenderam, e o fascículo sobre cocaína do World Drug Report 2022 traz a contagem. Em 2020, o país mais citado como origem foi a Colômbia, com 23 menções — e o segundo foi o Brasil, com 21. Entre os países de fora das Américas, o Brasil é o mais citado de todos. O mesmo relatório observa que, além de Santos, portos menores do norte do Brasil vêm ganhando importância nos embarques para a Europa, à medida que a vigilância aperta no porto paulista.

A outra metade da tabela

Em julho deste ano um novo estudo apontou que a cocaína teria se tornado a 6ª “commodity” mais valiosa da Amazônia Legal, com US$ 703.771.680 — à frente do ouro. O estudo é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a instituição que organiza a principal estatística de segurança pública do país, e cujo Anuário fornece parte dos números de apreensão usados neste texto.

O número é verificável, e nós o refizemos. Ele é exatamente isto: a coluna das polícias estaduais da tabela 95 daquele Anuário, somada nos nove estados, em 2024 — 46,9 toneladas —, multiplicada por US$ 15.000 o quilo. A conta bate na casa do grama.

Daí saem duas observações, e as duas são o assunto deste texto.

A primeira: falta a mesma metade, de novo

Aquele número conta só as polícias estaduais. A Polícia Federal apreendeu outras 20,8 toneladas nos mesmos nove estados, no mesmo ano, e não aparece em lugar nenhum do estudo.

O governo brasileiro informa ao mundo apenas o que a Polícia Federal apreende. O estudo do FBSP divulga apenas o que as polícias estaduais apreendem. São as duas metades da mesma tabela — e ninguém soma as duas.

A segunda: a posição no ranking não está no dado, está no preço

US$ 15.000 o quilo é 5,7 vezes o preço do atacado no Brasil que aparece na seção anterior — US$ 2.643, o valor que o próprio país informou às Nações Unidas. Ao preço brasileiro, as mesmas apreensões valem US$ 124 milhões, e a cocaína cai para o último lugar do gráfico do estudo, atrás do ouro.

Gráfico 8

A mesma apreensão, três preços, três respostas

Quanto valem as 46,9 toneladas apreendidas pelas polícias estaduais da Amazônia Legal em 2024, conforme o preço que se atribua ao quilo. Em milhões de dólares.

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0200400600800US$ 2.643US$ 6.495US$ 15.000704 mi

US$ 2.643 é o preço do atacado no Brasil informado ao UNODC (2022). US$ 6.495 é o preço que faria a cocaína empatar com o ouro. US$ 15.000 é o preço usado no estudo do FBSP, que não declara de onde ele vem.

Ver os números
PeríodoA mesma apreensão, três preços, três respostas
US$ 2.643124
US$ 6.495305
US$ 15.000704

Fonte: Cálculo próprio sobre o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (tabela 95) e o anexo 8.1 do World Drug Report 2026 (UNODC).

O estudo não diz de onde vem esse preço — a única frase de método sobre o assunto é uma nota de rodapé com o valor do quilo. E há um problema a mais, que a seção anterior deixa visível: as outras nove linhas daquele ranking são valores de exportação, medidos na saída do Brasil. Avaliar uma carga apreendida em Rondônia por um preço de outro elo da cadeia é somar um valor que, naquele ponto, ainda não existia.

E não é que o preço certo seja difícil de achar: ele não existe. Em 2022, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime foram atrás dessa resposta: reuniram 82 apreensões de cocaína noticiadas na imprensa brasileira em 2021 e conferiram que valor as autoridades atribuíam a cada uma. Acharam o mesmo quilo anunciado entre US$ 283 e US$ 55.494 — uma diferença de 196 vezes entre o menor e o maior. A conclusão do boletim é literal: os dados demonstram “a ausência de padronização dos valores de drogas ilícitas apreendidas”.

O detalhe mais revelador está em como aquele levantamento explica o seu valor máximo: ele foi “baseada no lucro dos criminosos nos preços praticados no mercado europeu”. Ou seja, a prática de avaliar apreensão brasileira a preço de destino já existia, e já tinha sido flagrada por um órgão oficial — quatro anos antes deste estudo.

E a conta dos US$ 7 bilhões

Na entrevista ao jornal O Globo que divulgou o estudo, o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, foi além: se apenas 10% da droga que circula fosse apreendida, a cocaína valeria US$ 7 bilhões e seria a segunda “commodity” da região.

Os números que abriram este texto já respondem. O mundo apreendeu 2.383 toneladas em 2024, de uma produção potencial estimada em 4.100 — cerca de 58%. Em dez anos essa proporção nunca ficou abaixo de 53,9%. Mesmo descontando a pureza da droga apreendida (a média de 75% do atacado europeu) e usando o teto da faixa de incerteza da produção (4.700 toneladas), ela continua em torno de 38%.

E há uma conta que fecha o assunto. Se apenas 10% fosse apreendido, as 203,4 toneladas apreendidas no Brasil em 2024 seriam a décima parte de 2.034 toneladas circulando por aqui — ou seja, 50% de tudo o que o mundo inteiro pode produzir em um ano, passando por um só país.

E o UNODC já respondeu a essa pergunta de frente, no Relatório Global sobre Cocaína de 2023. Entre 2006 e 2020, a fabricação potencial de cocaína cresceu 44% — e as apreensões cresceram 94%, mais que o dobro. O relatório é explícito ao ressalvar que os dois indicadores não são diretamente comparáveis, porque a fabricação é estimada em cocaína pura e a apreensão é pesada com pureza variável; e conclui que, justamente por isso, o aumento da pureza no período indicaria que a interceptação cresceu ainda mais do que a fabricação. Uma resposta policial que talvez não tenha apenas acompanhado a oferta: pode tê-la contido.

Para não haver mal-entendido

Nada disso quer dizer que os números foram inventados. A massa apreendida é real, é oficial e é a mesma que usamos aqui — e aquele Anuário é a nossa principal fonte para apreensão por estado. A regra dos “10%” também não nasceu nesse estudo: ela circula há décadas na política de drogas. O que os dados de hoje mostram é que ela envelheceu.

E a manchete que falou em lucro maior que o do ouro é do jornal, não do estudo: o que foi apreendido é justamente a parte que não gerou lucro para ninguém.

O que falta, aqui como no resto deste texto, é sempre a mesma coisa: dizer qual régua está sendo usada. Um preço declarado teria bastado.

O que este texto não diz

Vale fechar pelo que os números não permitem afirmar — que é onde costuma nascer o erro de leitura.

Não dizem quanta cocaína passa pelo Brasil. Apreensão mede o que foi encontrado, e o que é encontrado depende de quanta polícia está procurando, onde e com que método. Não há, em nenhuma fonte pública, estimativa confiável do fluxo total.

Não dizem qual é a maior rota. Cada força policial está amarrada a um meio de transporte — a polícia rodoviária às estradas, as forças fluviais aos rios —, e cada uma tem tamanho e orçamento muito diferentes. Somar todas e comparar rota terrestre com rota fluvial mede densidade de policiamento, não movimento de droga. São duas grandes modalidades operando na Amazônia, e os fluxos que governam cada uma ainda não estão compreendidos.

E não dizem nada confiável sobre facções. Não existe estimativa oficial de faturamento por facção no Brasil; os números que circulam são extrapolações. Quem apresenta um valor exato está estimando, não medindo.

E o que dá para afirmar

Cinco coisas, e todas com o número aberto nesta página.

Que o retrato internacional do Brasil é parcial — e não por opinião: o número que o país informa às Nações Unidas e à Organização dos Estados Americanos é o da Polícia Federal, e isso se demonstra na casa do grama, em seis anos seguidos, contra três fontes diferentes. Que a conta completa muda a posição do país: com as duas polícias somadas, o Brasil sai do 7º para o 3º lugar do mundo. Que a Amazônia Legal responde por um terço disso, com metade concentrada no Mato Grosso. Que o valor da cocaína é criado no corredor, não na lavoura — e que, por isso, o preço que se escolhe muda a resposta antes de o dado ser consultado. E que não existe, hoje, uma régua nacional: a fragmentação entre 27 polícias estaduais e as federais impede o país de somar o que apreende.

Pensando numa forma de melhorar nossa compreensão sobre esse problema, estamos construindo uma ferramenta que faz o caminho inverso do número agregado: em vez de esperar a estatística anual, ela lê o que as polícias e a imprensa publicam sobre cada apreensão e reconstrói o evento — data, município, quantidade, instituição —, para depois medir a própria cobertura contra as fontes oficiais. É trabalhoso e é parcial, e a gente diz o quanto é parcial. Mas é a única forma que encontramos de perguntar aos dados algo que a tabela anual não responde: não quanto se apreende, mas por onde a droga passa.

Enquanto não houver régua nacional, medir mal é melhor do que não medir — desde que se diga, a cada número, qual régua está sendo usada.

Fontes. Anexos estatísticos do World Drug Report 2026 (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime): cultivo de coca (6.1.1), fabricação de cocaína (6.1.3), apreensões de drogas 2015–2024 (7.1) e preços (8.1). Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, tabela 95 (apreensões por unidade da federação, polícias estaduais e Polícia Federal). Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Governança criminal e riscos sistêmicos na Pan-Amazônia: territórios, economias e modos de vida sob ameaça — o estudo examinado na penúltima seção; a conta da cocaína está na p. 15 do resumo de junho de 2026, que foi a versão lida; a entrevista citada é de O Globo, 3 de julho de 2026 (“PIB do crime: sexto produto mais valioso da Amazônia Legal, cocaína já gera lucro superior ao do ouro na região”). Série histórica de apreensão de cocaína da Polícia Federal / DICOR, 1995–2022 — sem link: a fonte original saiu do ar, e o arquivo está preservado por nós com verificação de integridade. UNODC, Global Report on Cocaine 2023 (p. 38 e 51), Monitoring of territories with presence of coca crops 2023 (p. 36 e 38) e World Drug Report 2022, fascículo 4 — Cocaína (p. 24 e 25). Organização dos Estados Americanos / CICAD, Informe sobre la Oferta de Drogas en las Américas 2022 (p. 21). Agência da União Europeia para as Drogas (EUDA), Boletim Estatístico 2026, tabelas de apreensões e de preço e pureza no atacado. Centro de Excelência para a Redução da Oferta de Drogas Ilícitas — SENAD/MJSP, UNODC e PNUD —, Monitoramento de Preços de Drogas Ilícitas, março de 2022 (p. 34 e 42–45) — o sítio próprio do Centro saiu do ar, mas os boletins seguem publicados pelo Ministério da Justiça.

Como os números foram apurados. Na conta do que o Brasil informa às Nações Unidas entram todas as formas de cocaína declaradas pelo país e ficam de fora a folha e o arbusto de coca. Os números de cada gráfico estão abertos em “Ver os números”.

Elaboração. Grupo de Pesquisa Sociedades Punitivas (UNIR/CNPq), projeto AMAZONCRIM.

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