Grupo de Pesquisa · UNIR / CNPq
Por Rodolfo Jacarandá — Professor e Pesquisador
A contabilidade da cocaína
O Brasil informa às Nações Unidas apenas o que a Polícia Federal apreende. As polícias estaduais — que hoje apreendem mais que a federal — ficam de fora da conta que o país manda ao mundo.
Toda vez que se pergunta quanta cocaína o Brasil apreende, a resposta depende de onde se procura. Há mais de um número oficial, eles não conversam entre si, e o que o país informa às Nações Unidas é o menor de todos. Este texto mostra de onde vem cada um deles — e o que muda quando se usa um ou outro.
Antes de chegar ao Brasil, vale olhar o tamanho do que se está medindo. A Colômbia, o Peru e a Bolívia — os três países onde a coca é cultivada — somaram 384,8 mil hectares plantados em 2024. É mais que o triplo do que se plantava em 2013 (120,8 mil hectares), e a Colômbia sozinha responde por 68% de toda a área.
Gráfico 1
Área cultivada com arbusto de coca na Colômbia, no Peru e na Bolívia somados, em mil hectares.
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Cada país mede a própria área com sistema nacional de monitoramento apoiado pelo UNODC. A série do Peru muda de metodologia em 2011, o que o próprio anexo assinala.
| Período | O mundo nunca plantou tanta coca |
|---|---|
| 2010 | 154,2 |
| 2011 | 155,6 |
| 2012 | 133,7 |
| 2013 | 120,8 |
| 2014 | 132,3 |
| 2015 | 156,5 |
| 2016 | 213,0 |
| 2017 | 245,4 |
| 2018 | 246,2 |
| 2019 | 234,2 |
| 2020 | 234,2 |
| 2021 | 315,5 |
| 2022 | 354,9 |
| 2023 | 376,4 |
| 2024 | 384,8 |
Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 6.1.1.
Com essa área, o UNODC estima que se poderia fabricar 4.100 toneladas de cocaína pura em 2024 — contra 1.100 toneladas em 2010. A produção potencial quase quadruplicou em catorze anos, e quase toda a aceleração é de 2020 para cá.
Em 2024, o mundo apreendeu 2.383 toneladas, o recorde da série. As apreensões mais que dobraram em dez anos — e ainda assim o mercado cresce, o que sugere que a produção real está acima da capacidade de apreensão.
Gráfico 2
Cocaína que poderia ser fabricada com a coca plantada, e cocaína efetivamente apreendida no mundo, em toneladas.
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“Produção potencial” é o quanto poderia ser fabricado a partir da área cultivada — não é o que chegou ao mercado. A ressalva é do próprio UNODC. O total apreendido é a soma dos países que reportaram.
| Ano | Apreendido | Potencial |
|---|---|---|
| 2015 | 907 | 1.000 |
| 2016 | 1.119 | 1.300 |
| 2017 | 1.287 | 1.600 |
| 2018 | 1.271 | 1.700 |
| 2019 | 1.365 | 1.800 |
| 2020 | 1.298 | 2.000 |
| 2021 | 1.898 | 2.300 |
| 2022 | 1.835 | 2.800 |
| 2023 | 1.996 | 3.700 |
| 2024 | 2.383 | 4.100 |
Fonte: Anexos estatísticos do World Drug Report 2026 (UNODC), tabelas 6.1.3 e 7.1.
Uma advertência antes de subtrair uma linha da outra, e ela é do próprio UNODC: as duas não medem a mesma coisa. A produção potencial é calculada em cocaína pura, e a apreensão é pesada como a droga saiu do porta-malas — misturada, em pureza que varia muito. A Agência da União Europeia para as Drogas, que mede pureza país a país, registrou em 2024 uma média em torno de 75% no atacado, entre os 8 países que declararam o dado. Ou seja: uma tonelada apreendida quase nunca é uma tonelada de cocaína pura, e a diferença entre o que se produz e o que se apreende é, muito provavelmente, maior do que a simples subtração sugere — não menor.
O próprio UNODC descreve essa queda em degraus, no relatório de 2023 que acompanha o cultivo de coca na Colômbia: a cocaína sai do laboratório clandestino com 75% a 90% de pureza, chega aos portos e fronteiras com 70% a 85%, e alcança o usuário final abaixo de 50%. Em cada degrau, o que se pesa é cada vez menos cocaína e cada vez mais o resto.
Todo ano cada país informa às Nações Unidas quanto apreendeu, e é dessa tabela que sai o retrato internacional do problema. Em 2024 o Brasil informou 75,6 toneladas de cocaína, o que o coloca em 7º lugar no mundo.
Gráfico 3
Cocaína apreendida em 2024, em toneladas, conforme cada país informou às Nações Unidas. Os 12 maiores.
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| Posição | País | Toneladas |
|---|---|---|
| 1º | Colômbia | 965,6 t |
| 2º | Equador | 265,5 t |
| 3º | Estados Unidos | 176,2 t |
| 4º | Espanha | 124,7 t |
| 5º | Peru | 116,4 t |
| 6º | Panamá | 99,3 t |
| 7º | Brasil | 75,6 t |
| 8º | Bolívia | 66,0 t |
| 9º | França | 53,5 t |
| 10º | México | 51,1 t |
| 11º | Bélgica | 44,8 t |
| 12º | Honduras | 39,4 t |
Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 7.1.
O problema é que esse número não é o do Brasil. É o de uma das polícias brasileiras.
O Brasil tem duas grandes fontes de apreensão de droga: as polícias estaduais, que respondem pela maior parte das ocorrências no território, e a Polícia Federal, que atua sobretudo em fronteiras, rodovias federais, portos e aeroportos, e reúne também os números de apreensões feitas por outras polícias e agências federais, como a Polícia Rodoviária Federal e a Receita Federal. Comparando, ano a ano, o que o país informou às Nações Unidas com a série histórica da própria Polícia Federal, os dois conjuntos de números são idênticos.
Não são parecidos: são o mesmo número. Em seis anos seguidos, a maior diferença entre as duas colunas é de 22 gramas — em totais que passam de 100 toneladas. E a coincidência se repete contra uma terceira fonte: o que o Brasil informou às Nações Unidas em 2023 (72.504,35 kg) e a coluna da Polícia Federal no Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (72.504,81 kg) diferem em 456 gramas.
A conclusão é direta: as polícias estaduais não entram na conta que o Brasil manda para o mundo. E elas apreendem mais que a federal — foram 128,9 toneladas contra 74,5 em 2024.
Em 2024 a mesma conferência contra o Anuário dá uma diferença maior: as 75,6 toneladas informadas às Nações Unidas contra 74,5 na coluna da Polícia Federal — 1,1 tonelada, ou 1,4%. Fica registrado para que ninguém precise perguntar; a leitura não muda.
O retrato internacional do Brasil está construído sobre pouco mais de um terço do fenômeno.
Vale dizer com todas as letras o que isso não é: não é manipulação de número. É ausência de sistema. Não existe, no Brasil, uma instância que reúna o que as 27 polícias estaduais apreendem e entregue esse total como número do país. O que existe é a estatística de uma instituição federal, que é organizada, é pública — e é parcial.
Não é diagnóstico nosso. Um boletim técnico assinado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e pelo PNUD, publicado em 2022, escreve o mesmo: com 27 polícias civis, 27 militares e mais duas federais, “dificulta-se a criação e manutenção de um banco de dados nacional que registre, de maneira unificada, indicadores de quantidade, preços, pureza e outras variáveis sobre as drogas em circulação”.
O Brasil respondeu também ao questionário da Organização dos Estados Americanos e mandou o mesmo dado: no Informe sobre la Oferta de Drogas en las Américas, as apreensões brasileiras de cocaína são 41 toneladas em 2016, 105 em 2019 e 91 em 2020 — a série da Polícia Federal, ao arredondamento. Dois organismos, dois idiomas, anos diferentes, a mesma metade da tabela.
A diferença é que a OEA ordena o continente com esses números. Entre 2016 e 2020, o relatório lista a Colômbia com 2.425 toneladas, o Equador com cerca de 410 e o Brasil com cerca de 365.
Gráfico 4
Cocaína apreendida entre 2016 e 2020, em toneladas, conforme cada país informou à Organização dos Estados Americanos.
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Os valores de Equador, Brasil e Bolívia são declarados pela própria OEA como aproximados (“alrededor de”). O número brasileiro é o mesmo que o país informa às Nações Unidas — o da Polícia Federal.
| Posição | País | Toneladas |
|---|---|---|
| 1º | Colômbia | 2.425 t |
| 2º | Equador | 410 t |
| 3º | Brasil | 365 t |
| 4º | Bolívia | 97 t |
Fonte: Organização dos Estados Americanos / CICAD, Informe sobre la Oferta de Drogas en las Américas 2022, p. 21.
No livro-caixa oficial das Américas, o Brasil aparece atrás do Equador — não por apreender menos, mas por contar menos.
Somando as polícias federais e estaduais, as apreensões brasileiras de 2024 chegam a 203,4 toneladas — cerca de 8,5% de tudo o que se apreendeu no mundo naquele ano. Com esse número, o Brasil deixaria a 7ª posição e apareceria em 3º lugar, à frente dos Estados Unidos.
Gráfico 5
O mesmo ranking de 2024, trocando as 75,6 toneladas informadas pelo total que as polícias brasileiras registraram: 203,4 toneladas.
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Outros países também podem informar parcialmente, então a posição é ordem de grandeza, não colocação oficial.
| Posição | País | Toneladas |
|---|---|---|
| 1º | Colômbia | 965,6 t |
| 2º | Equador | 265,5 t |
| 3º | Brasil | 203,4 t |
| 4º | Estados Unidos | 176,2 t |
| 5º | Espanha | 124,7 t |
| 6º | Peru | 116,4 t |
| 7º | Panamá | 99,3 t |
| 8º | Bolívia | 66,0 t |
| 9º | França | 53,5 t |
| 10º | México | 51,1 t |
| 11º | Bélgica | 44,8 t |
| 12º | Honduras | 39,4 t |
Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 7.1, e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, tabela 95.
E mesmo essas 203,4 toneladas são um piso, não uma estimativa: as polícias estaduais de Minas Gerais e do Rio de Janeiro não aparecem na estatística nacional de apreensão de drogas — nem na tabela 95 do Anuário do FBSP, nem no microdado do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas. O que consta dos dois estados é apenas o que a Polícia Federal apreendeu neles (0,5 e 3,4 toneladas em 2024). Dois dos maiores estados do país estão, na prática, ausentes da estatística.
Dos nove estados da Amazônia Legal saíram 67,7 toneladas em 2024 — 33,3% de toda a cocaína apreendida no Brasil, contra 40,1% em 2023. Para dar a dimensão: a região sozinha apreende mais que a Bolívia, que a França ou que o México.
Gráfico 6
Cocaína apreendida em 2024 nos nove estados da Amazônia Legal, em toneladas — polícias estaduais e Polícia Federal somadas.
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Onde a coluna das polícias estaduais está vazia na fonte, o número é só da Polícia Federal — em 2024 é o caso do Amapá. Por isso os totais são um piso.
| Posição | Estado | Toneladas |
|---|---|---|
| 1º | Mato Grosso | 33,5 t |
| 2º | Amazonas | 22,0 t |
| 3º | Rondônia | 4,6 t |
| 4º | Pará | 3,8 t |
| 5º | Maranhão | 2,0 t |
| 6º | Tocantins | 1,1 t |
| 7º | Acre | 0,6 t |
| 8º | Amapá | 0,2 t |
| 9º | Roraima | <0,1 t |
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, tabela 95.
Dois pontos que o gráfico mostra e que costumam passar batido. O primeiro é o Mato Grosso: sozinho, ele responde por 49,5% da cocaína apreendida na Amazônia Legal — e é justamente o estado que a análise internacional costuma tratar como “Centro-Oeste” e tirar do mapa amazônico.
O segundo é a troca de posição entre Rondônia e Amazonas. Em 2023 Rondônia apreendia 10,3 toneladas e o Amazonas, 9,8. Em 2024 os dois trocaram de lugar: o Amazonas subiu para 22,0 toneladas e Rondônia caiu para 4,6.
Uma apreensão que sobe pode significar mais droga passando — ou mais polícia procurando, ou apenas mais registro sendo feito. Apreensão não é fluxo, e um par de anos não é tendência. Os três cenários pedem respostas de política pública opostas, e o dado, sozinho, não distingue entre eles.
Há uma última conta que ajuda a entender por que essa rota existe. O quilo de cocaína no atacado custa cerca de 2.000 dólares na Bolívia e 2.643 dólares no Brasil. Na ponta europeia, o mesmo quilo no atacado chega a 38.837 dólares — 19 vezes o preço de origem.
Gráfico 7
Preço típico do quilo de cocaína no atacado, em dólares. Entre parênteses, o ano a que se refere o preço informado por cada país.
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Cada país informa o preço em anos diferentes, e o valor não é ajustado por pureza — serve para ordem de grandeza, não para conta exata.
| Posição | País (ano) | US$ por quilo |
|---|---|---|
| 1º | Alemanha (2024) | 38.837 |
| 2º | Reino Unido (2024) | 37.724 |
| 3º | Espanha (2024) | 32.610 |
| 4º | França (2024) | 32.216 |
| 5º | Bélgica (2023) | 25.946 |
| 6º | Chile (2024) | 5.754 |
| 7º | Brasil (2022) | 2.643 |
| 8º | Peru (2023) | 2.201 |
| 9º | Bolívia (2024) | 2.000 |
| 10º | Colômbia (2021) | 1.215 |
Fonte: Anexo estatístico do World Drug Report 2026 (UNODC), tabela 8.1.
No varejo a distância é ainda maior: o grama no Reino Unido sai a 102,3 dólares — o que dá cerca de 102 mil dólares o quilo, 51 vezes o preço de origem. Praticamente todo esse valor é criado no transporte e no risco, não na plantação.
E, mesmo lá na ponta, não existe “o preço”: existe uma faixa. A agência de drogas da União Europeia recolhe esse valor com os 13 países que o declaram, e em 2024 o quilo no atacado foi informado a partir de 14 mil euros, com máximos chegando a 84 mil. Guarde esse detalhe: ele volta na última seção.
É por isso que o corredor importa mais que a lavoura — e o corredor passa pela Amazônia.
Embora ainda sejam necessários melhores estudos sobre a distribuição da droga entre atacado e varejo, não é arriscado afirmar que a Amazônia não é destino de cocaína: é passagem. A droga que atravessa Rondônia, o Mato Grosso ou a calha do Solimões está indo, pelos rios e pelas estradas, para um porto ou um aeroporto — e de lá para a Europa e os outros continentes. A fronteira amazônica e o porto brasileiro no Atlântico são o mesmo problema, separados por três mil quilômetros.
E isso não é leitura nossa: é o que os outros países dizem. Todo ano os Estados informam ao UNODC de onde partiram as cargas que apreenderam, e o fascículo sobre cocaína do World Drug Report 2022 traz a contagem. Em 2020, o país mais citado como origem foi a Colômbia, com 23 menções — e o segundo foi o Brasil, com 21. Entre os países de fora das Américas, o Brasil é o mais citado de todos. O mesmo relatório observa que, além de Santos, portos menores do norte do Brasil vêm ganhando importância nos embarques para a Europa, à medida que a vigilância aperta no porto paulista.
Em julho deste ano um novo estudo apontou que a cocaína teria se tornado a 6ª “commodity” mais valiosa da Amazônia Legal, com US$ 703.771.680 — à frente do ouro. O estudo é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a instituição que organiza a principal estatística de segurança pública do país, e cujo Anuário fornece parte dos números de apreensão usados neste texto.
O número é verificável, e nós o refizemos. Ele é exatamente isto: a coluna das polícias estaduais da tabela 95 daquele Anuário, somada nos nove estados, em 2024 — 46,9 toneladas —, multiplicada por US$ 15.000 o quilo. A conta bate na casa do grama.
Daí saem duas observações, e as duas são o assunto deste texto.
Aquele número conta só as polícias estaduais. A Polícia Federal apreendeu outras 20,8 toneladas nos mesmos nove estados, no mesmo ano, e não aparece em lugar nenhum do estudo.
O governo brasileiro informa ao mundo apenas o que a Polícia Federal apreende. O estudo do FBSP divulga apenas o que as polícias estaduais apreendem. São as duas metades da mesma tabela — e ninguém soma as duas.
US$ 15.000 o quilo é 5,7 vezes o preço do atacado no Brasil que aparece na seção anterior — US$ 2.643, o valor que o próprio país informou às Nações Unidas. Ao preço brasileiro, as mesmas apreensões valem US$ 124 milhões, e a cocaína cai para o último lugar do gráfico do estudo, atrás do ouro.
Gráfico 8
Quanto valem as 46,9 toneladas apreendidas pelas polícias estaduais da Amazônia Legal em 2024, conforme o preço que se atribua ao quilo. Em milhões de dólares.
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US$ 2.643 é o preço do atacado no Brasil informado ao UNODC (2022). US$ 6.495 é o preço que faria a cocaína empatar com o ouro. US$ 15.000 é o preço usado no estudo do FBSP, que não declara de onde ele vem.
| Período | A mesma apreensão, três preços, três respostas |
|---|---|
| US$ 2.643 | 124 |
| US$ 6.495 | 305 |
| US$ 15.000 | 704 |
Fonte: Cálculo próprio sobre o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (tabela 95) e o anexo 8.1 do World Drug Report 2026 (UNODC).
O estudo não diz de onde vem esse preço — a única frase de método sobre o assunto é uma nota de rodapé com o valor do quilo. E há um problema a mais, que a seção anterior deixa visível: as outras nove linhas daquele ranking são valores de exportação, medidos na saída do Brasil. Avaliar uma carga apreendida em Rondônia por um preço de outro elo da cadeia é somar um valor que, naquele ponto, ainda não existia.
E não é que o preço certo seja difícil de achar: ele não existe. Em 2022, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime foram atrás dessa resposta: reuniram 82 apreensões de cocaína noticiadas na imprensa brasileira em 2021 e conferiram que valor as autoridades atribuíam a cada uma. Acharam o mesmo quilo anunciado entre US$ 283 e US$ 55.494 — uma diferença de 196 vezes entre o menor e o maior. A conclusão do boletim é literal: os dados demonstram “a ausência de padronização dos valores de drogas ilícitas apreendidas”.
O detalhe mais revelador está em como aquele levantamento explica o seu valor máximo: ele foi “baseada no lucro dos criminosos nos preços praticados no mercado europeu”. Ou seja, a prática de avaliar apreensão brasileira a preço de destino já existia, e já tinha sido flagrada por um órgão oficial — quatro anos antes deste estudo.
Na entrevista ao jornal O Globo que divulgou o estudo, o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, foi além: se apenas 10% da droga que circula fosse apreendida, a cocaína valeria US$ 7 bilhões e seria a segunda “commodity” da região.
Os números que abriram este texto já respondem. O mundo apreendeu 2.383 toneladas em 2024, de uma produção potencial estimada em 4.100 — cerca de 58%. Em dez anos essa proporção nunca ficou abaixo de 53,9%. Mesmo descontando a pureza da droga apreendida (a média de 75% do atacado europeu) e usando o teto da faixa de incerteza da produção (4.700 toneladas), ela continua em torno de 38%.
E há uma conta que fecha o assunto. Se apenas 10% fosse apreendido, as 203,4 toneladas apreendidas no Brasil em 2024 seriam a décima parte de 2.034 toneladas circulando por aqui — ou seja, 50% de tudo o que o mundo inteiro pode produzir em um ano, passando por um só país.
E o UNODC já respondeu a essa pergunta de frente, no Relatório Global sobre Cocaína de 2023. Entre 2006 e 2020, a fabricação potencial de cocaína cresceu 44% — e as apreensões cresceram 94%, mais que o dobro. O relatório é explícito ao ressalvar que os dois indicadores não são diretamente comparáveis, porque a fabricação é estimada em cocaína pura e a apreensão é pesada com pureza variável; e conclui que, justamente por isso, o aumento da pureza no período indicaria que a interceptação cresceu ainda mais do que a fabricação. Uma resposta policial que talvez não tenha apenas acompanhado a oferta: pode tê-la contido.
Nada disso quer dizer que os números foram inventados. A massa apreendida é real, é oficial e é a mesma que usamos aqui — e aquele Anuário é a nossa principal fonte para apreensão por estado. A regra dos “10%” também não nasceu nesse estudo: ela circula há décadas na política de drogas. O que os dados de hoje mostram é que ela envelheceu.
E a manchete que falou em lucro maior que o do ouro é do jornal, não do estudo: o que foi apreendido é justamente a parte que não gerou lucro para ninguém.
O que falta, aqui como no resto deste texto, é sempre a mesma coisa: dizer qual régua está sendo usada. Um preço declarado teria bastado.
Vale fechar pelo que os números não permitem afirmar — que é onde costuma nascer o erro de leitura.
Não dizem quanta cocaína passa pelo Brasil. Apreensão mede o que foi encontrado, e o que é encontrado depende de quanta polícia está procurando, onde e com que método. Não há, em nenhuma fonte pública, estimativa confiável do fluxo total.
Não dizem qual é a maior rota. Cada força policial está amarrada a um meio de transporte — a polícia rodoviária às estradas, as forças fluviais aos rios —, e cada uma tem tamanho e orçamento muito diferentes. Somar todas e comparar rota terrestre com rota fluvial mede densidade de policiamento, não movimento de droga. São duas grandes modalidades operando na Amazônia, e os fluxos que governam cada uma ainda não estão compreendidos.
E não dizem nada confiável sobre facções. Não existe estimativa oficial de faturamento por facção no Brasil; os números que circulam são extrapolações. Quem apresenta um valor exato está estimando, não medindo.
Cinco coisas, e todas com o número aberto nesta página.
Que o retrato internacional do Brasil é parcial — e não por opinião: o número que o país informa às Nações Unidas e à Organização dos Estados Americanos é o da Polícia Federal, e isso se demonstra na casa do grama, em seis anos seguidos, contra três fontes diferentes. Que a conta completa muda a posição do país: com as duas polícias somadas, o Brasil sai do 7º para o 3º lugar do mundo. Que a Amazônia Legal responde por um terço disso, com metade concentrada no Mato Grosso. Que o valor da cocaína é criado no corredor, não na lavoura — e que, por isso, o preço que se escolhe muda a resposta antes de o dado ser consultado. E que não existe, hoje, uma régua nacional: a fragmentação entre 27 polícias estaduais e as federais impede o país de somar o que apreende.
Pensando numa forma de melhorar nossa compreensão sobre esse problema, estamos construindo uma ferramenta que faz o caminho inverso do número agregado: em vez de esperar a estatística anual, ela lê o que as polícias e a imprensa publicam sobre cada apreensão e reconstrói o evento — data, município, quantidade, instituição —, para depois medir a própria cobertura contra as fontes oficiais. É trabalhoso e é parcial, e a gente diz o quanto é parcial. Mas é a única forma que encontramos de perguntar aos dados algo que a tabela anual não responde: não quanto se apreende, mas por onde a droga passa.
Enquanto não houver régua nacional, medir mal é melhor do que não medir — desde que se diga, a cada número, qual régua está sendo usada.
Fontes. Anexos estatísticos do World Drug Report 2026 (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime): cultivo de coca (6.1.1), fabricação de cocaína (6.1.3), apreensões de drogas 2015–2024 (7.1) e preços (8.1). Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, tabela 95 (apreensões por unidade da federação, polícias estaduais e Polícia Federal). Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Governança criminal e riscos sistêmicos na Pan-Amazônia: territórios, economias e modos de vida sob ameaça — o estudo examinado na penúltima seção; a conta da cocaína está na p. 15 do resumo de junho de 2026, que foi a versão lida; a entrevista citada é de O Globo, 3 de julho de 2026 (“PIB do crime: sexto produto mais valioso da Amazônia Legal, cocaína já gera lucro superior ao do ouro na região”). Série histórica de apreensão de cocaína da Polícia Federal / DICOR, 1995–2022 — sem link: a fonte original saiu do ar, e o arquivo está preservado por nós com verificação de integridade. UNODC, Global Report on Cocaine 2023 (p. 38 e 51), Monitoring of territories with presence of coca crops 2023 (p. 36 e 38) e World Drug Report 2022, fascículo 4 — Cocaína (p. 24 e 25). Organização dos Estados Americanos / CICAD, Informe sobre la Oferta de Drogas en las Américas 2022 (p. 21). Agência da União Europeia para as Drogas (EUDA), Boletim Estatístico 2026, tabelas de apreensões e de preço e pureza no atacado. Centro de Excelência para a Redução da Oferta de Drogas Ilícitas — SENAD/MJSP, UNODC e PNUD —, Monitoramento de Preços de Drogas Ilícitas, março de 2022 (p. 34 e 42–45) — o sítio próprio do Centro saiu do ar, mas os boletins seguem publicados pelo Ministério da Justiça.
Como os números foram apurados. Na conta do que o Brasil informa às Nações Unidas entram todas as formas de cocaína declaradas pelo país e ficam de fora a folha e o arbusto de coca. Os números de cada gráfico estão abertos em “Ver os números”.
Elaboração. Grupo de Pesquisa Sociedades Punitivas (UNIR/CNPq), projeto AMAZONCRIM.
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