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Entre 2019 e 2024 o número total de estupros em Rondônia aumentou 36%. Esse número considera a soma entre estupro e estupro de vulnerável (vítima menor de 14 anos de idade).
Esse número reforça um achado do Anuário 2025, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que apontou em julho de 2025 que Rondônia possui 3 dos 5 municípios com as taxas mais altas de estupros do Brasil, dentre aqueles com mais de 100 mil habitantes: Ariquemes, Porto Velho e Vilhena. Ji-Paraná, na região central do estado integra a lista das 50 primeiras posições no 29º lugar.
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De acordo com os dados obtidos do observatório estadual da segurança pública, produzidos pelo próprio Governo rondoniense, 8.025 pessoas foram vítimas de estupro em Rondônia, entre 2019 e 2024. Dessas, 5.626 tinham menos de 14 anos de idade (estupro de vulnerável).
Quando separamos os dados de vítimas menores de 14 anos o aumento entre 2019 e 2024 foi ainda maior: 55%.
Voltando ao número de estupro total, em 2019 foram registradas 1.255 ocorrências em Rondônia. Em 2024, foram 1.708. Para efeito de comparação, o estado do Amazonas registrou 1.551 ocorrências de estupro total em 20242.
Considerando que apenas a cidade de Manaus, com boa infraestrutura de segurança pública, possui uma população maior do que todo o estado de Rondônia, o resultado rondoniense é assustador, colocando-o em primeiro lugar na Amazônia Ocidental em números absolutos.
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| x | wdt_ID | wdt_created_by | wdt_created_at | wdt_last_edited_by | wdt_last_edited_at | Município | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | Total | 2019-2024 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2 | Porto Velho | 429 | 339 | 321 | 326 | 576 | 568 | 2.559 | 32% | |||||
| 3 | Ariquemes | 67 | 98 | 100 | 94 | 132 | 130 | 621 | 94% | |||||
| 4 | Vilhena | 88 | 75 | 75 | 95 | 110 | 124 | 567 | 41% | |||||
| 5 | Ji-Paraná | 76 | 66 | 83 | 96 | 92 | 94 | 507 | 24% | |||||
| 6 | Rolim de Moura | 56 | 37 | 60 | 51 | 61 | 58 | 323 | 4% | |||||
| 7 | Jaru | 52 | 44 | 28 | 39 | 46 | 63 | 272 | 21% | |||||
| 8 | Cacoal | 40 | 24 | 33 | 43 | 55 | 63 | 258 | 58% | |||||
| 9 | Guajará-Mirim | 42 | 38 | 28 | 43 | 44 | 44 | 239 | 5% | |||||
| 10 | Pimenta Bueno | 29 | 26 | 28 | 31 | 29 | 22 | 165 | -24% | |||||
| 11 | Ouro Preto do Oeste | 27 | 23 | 19 | 16 | 30 | 30 | 145 | 11% |
Com os dados municipais, o maior percentual do crescimento dos estupros em Rondônia aconteceu entre 2023 e 2024, com um aumento de 37,8% nesse período – esse patamar elevado foi mantido em 2024.
Ao longo dos seis anos desse estudo, a participação dos estupros de vulnerável na composição por faixa etária do valor total de estupros aumentou bastante, chegando a 76,1% em 2024.
Ou seja, a cada 4 pessoas estupradas em Rondônia, 3 (ou mais pessoas) têm menos de 14 anos da idade.
A taxa estadual de estupro total em 2024, feita a partir do somatório de todos os estupros em municípios, ficou em 97,8 estupros totais por 100 mil habitantes.
Em 2019 esse valor tinha sido de 71,9. Esse aumento do estupro total em 2024 foi puxado pelo aumento do estupro de vulnerável, cujo crescimento entre 2023 e 2024 foi de 12,3%.
2019: 1.255 → 2020: 1.105 (−11,9%) → 2021: 1.080 (−2,3%) → 2022: 1.210 (+12,0%) → 2023: 1.667 (+37,8%) → 2024: 1.708 (+2,5%).
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Em 2024, os 5 municípios com mais ocorrências responderam por 57,3% do estupro total no estado de Rondônia (o top-10 = 72,5%). No acumulado, os top-5 concentram 57% dos estupros totais.
Índice de desigualdade (Gini municipal): ~0,69 em 2024 (muito alto).
A capital Porto Velho concentrou 33,3% de 2024 (568 casos) e 31,9% do total no período 2019–2024 (2.559 casos).
A correlação tamanho-população versus volume de estupros em Porto Velho é altíssima (r ≈ 0,99). Grandes municípios naturalmente somam mais casos em números absolutos. Por outro lado, nos municípios maiores, sobretudo em capitais, existe (ou deveria existir) maior infraestrutura para policiar, prevenir e reprimir esses crimes. E Porto Velho é um exemplo de onde isso não acontece, afinal, é a cidade com mais de 100 mil habitantes, junto com Ariquemes, onde o crescimento dos estupros entre 2019 e 2024 é mais consistente em seis anos.
Embora durante o período analisado de seis anos tenha havido quedas entre alguns anos, a manutenção do crescimento dos estupros no fim da série em Rondônia é alarmante.
Entre 2023 e 2024 (Δt 23→24) foram 41 casos a mais no total. Municípios como Jaru (+17), Jaru (+17), Machadinho D’Oeste (+17), Vilhena (+14), Alta Floresta D’Oeste (+10), Cacoal (+8) comandaram essa subida anual. Buritis teve a maior queda total, 12 casos.
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| Município | Total 2024 | Taxa 2024 |
|---|---|---|
| Porto Velho | 568 | 110,3 |
| Ariquemes | 130 | 119,7 |
| Vilhena | 124 | 114,3 |
| Ji-Paraná | 94 | 67,5 |
| Cacoal | 63 | 64,5 |
| Jaru | 63 | 113,3 |
| Machadinho D'Oeste | 61 | 179,1 |
| Rolim de Moura | 58 | 92,7 |
| Guajará-Mirim | 44 | 101,0 |
| Espigão D'Oeste | 33 | 100,9 |
O crime de estupro em Rondônia é, predominantemente, um crime contra crianças e adolescentes.
A proporção dos crimes de estupro de vulnerável diante do total de estupros em Rondônia cresceu de 66,8% em 2019 para 76,1% em 2024, muito acima da média nacional que é de 61%3.
Participação do estupro de vulnerável no total de estupros, 2024:
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Os dados do observatório rondoniense não permitem separar as ocorrências por idade com muitos detalhes. Porém, apenas com a separação entre estupro e estupro de vulnerável é possível afirmar que em municípios menores a participação dos crimes contra crianças e adolescentes é muito maior.
Nesse caso, Pimenteiras do Oeste é o município com o valor mais alto, 91% de todos os casos entre 2019 e 2024 foram contra crianças e adolescentes até 14 anos de idade. Na sequência estão os municípios de Alto Alegre dos Parecis (91,5%), Teixeirópolis (87,5%), Cujubim (87,5%) e Mirante da Serra (86,7%).
Outro dado assustador é a frequência com que esse tipo de crime é cometido dentro de casa, por pessoas do convívio da vítima.
Dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2025 apontam que 60% das vítimas de estupro total foram atacadas por membros da família, e outros 24% por alguém com quem sua família possuía relações4. Ou seja, para 84% das vítimas a ameaça está presente nas relações familiares.
Quanto ao local onde o crime foi cometido, quando a vítima é menor de 14 anos de idade, em 69,1% dos casos ela foi violentada dentro de casa – contra apenas 10% da via pública, dentre outras opções.
Ainda segundo os dados do Anuário 2025, no Brasil, 87,7% das vítimas de estupro, no total, são mulheres. No caso de estupro de vulnerável, o percentual é de 86,2% e de estupro cuja vítima tem mais de 14 anos esse valor sobe para 92,5%5.
Esses indicadores nos permitem afirmar que os crimes de estupro se somam à longa lista de crimes contra a mulher que fazem do estado de Rondônia um líder nacional nesse tipo de violência.
Na história recente, Rondônia possui a taxa média mais alta do Brasil de homicídio de mulheres. Entre 2020 e 2024, 6,52 mulheres a cada 100 mil foram assassinadas no estado – contra uma média nacional por UF de 3,64. Em 2022 Rondônia foi líder do ranking anual com 8,10 homicídios por 100 mil mulheres, mantendo a estabilidade das altas taxas nos anos seguintes.
No crime de lesão corporal dolosa em violência doméstica, no mesmo período, de 2020 a 2024, Rondônia possui uma taxa média de 467,28 casos por 100 mil mulheres, 2ª posição no país, atrás apenas do Mato Grosso – contra uma média nacional por UF de 229,82.
No crime de feminicídio, Rondônia mantém a consistência com que vulnerabiliza as mulheres. O estado está em 4º lugar na média nesses mesmos 4 anos, 2,08 feminicídios por 100 mil mulheres, atrás do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre – a média nacional é de 1,36.
Mais análises ainda precisam ser feitas para encontrar associações entre crimes sexuais e os crimes contra crianças e adolescentes.
Em 2025, o Anuário do FBSP mostrou que o estado de Rondônia também é um destaque nacional em abandono de incapaz, liderando o ranking de abandono total de crianças de adolescentes de 0-17 anos, com uma taxa de 98,5 por 100 mil habitantes – contra a média nacional de 24,46.
No caso desse crime, a taxa mais alta de Rondônia é na faixa de 5-9 anos de idade, com 109,9 por 100 mil habitantes. É muito provável que essas crianças também tenha sido vítimas de crimes e abusos sexuais, que resultaram em alguma forma de abandono.
A série histórica do crime de estupro, sem os dados de estupro de vulnerável, por estados (UF), do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é bem consolidada desde pelo menos 2008.
Embora essa série não possua os números separados de estupros de crianças e menores de 14 anos de idade, ela é muito útil para entender a consistência com que o estado de Rondônia se destaca no cenário nacional desse tipo de violência.
De 2008 a 2024 o estado de Rondônia sustenta uma média de 36,15 estupros por 100 mil habitantes. Esse número coloca o estado em 3º lugar no ranking nacional de estupros (sem vulnerável), atrás de Roraima e Mato Grosso do Sul.
O último ano em que Rondônia foi líder nacional de estupros foi em 2023, com taxa de 28,40. Antes disso, esse feito havia se repetido apenas em 2012, quando Rondônia atingiu 55,70. Ou seja, entre 2012 e 2023 nenhuma ação substancial foi realizada para que o estado deixasse o protagonismo trágico que exerce no cenário brasileiro da violência sexual.
Fonte: Anuário FBSP 2010 a 2025. Taxa por 100 mil habitantes composta com o número total de estupros, com vítimas homens e mulheres, maiores e menores de 14 anos de idade.
Não há consenso sobre porque o estado de Rondônia é tão violento em crimes sexuais contra crianças, adolescentes e mulheres.
O estado vive uma crise de grave fragilidade na segurança pública, com redução de pessoal e baixos investimentos em infraestrutura. Desde 2010 a força policial civil foi reduzida em quase 40%.
Em todo o estado há pouquíssimas unidades especializadas de atendimento à mulher vítima de violência e um verdadeiro caos quando se trata de pessoal especializado para atuar na linha de frente dos crimes sexuais.
Há anos se discute sobre horários de atendimento em delegacias especializadas e sobre o aumento de mulheres na condução desses serviços, sem que mudanças substanciais ocorram.
O senso comum dos analistas externos procura explicações nas dificuldades territoriais amazônicas, se voltando para os grotões de vilas, distritos e locais inacessíveis para tentar explicar esses números.
Mas, esses dados são provenientes das cidades com a melhor infraestrutura da região, onde o interesse político concentra o maior volume de recursos. Se o cenário é trágico nas cidades grandes, nos locais mais afastados sequer temos vaga noção do que ocorre com crianças, adolescentes e mulheres vulneráveis.
Nada realmente importante foi feito nos últimos anos e nada impactante está no horizonte.
Com o recente crescimento das taxas de homicídios (desde pelo menos 2021), com a manutenção das taxas já muito altas de crimes patrimoniais e com a completa falta de interesse de instituições políticas e do sistema de justiça para atuar firmemente sobre o tema da segurança pública, é muito provável que a violência sexual continue aumentando fortemente em todo o estado pelos próximos anos.
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* O gráfico original neste post estava errado. Até o Anuário 2021 do FBSP os dados de estupros, com vítimas homens e mulheres, maiores e menores de 14 anos de idade, portanto, eram publicados juntos, compondo o mesmo indicador (chamado até então apenas de “estupro”. A partir de 2021, os números relativos a 2019 e 2020 foram separados – “estupro” (vítimas >14 anos) foi desagregado, portanto, de “estupro de vulnerável” (vítimas <14 anos) . Para compor um quadro correto, revisamos os dados e a partir de 2019 utilizamos o valor total de estupros para reformular a série.